Crônica

O Barqueiro

Autor:

Apesar da escuridão, eu via ao longe naquele rio um homem num barco. Um pequeno barco. O homem estava em pé, com um lampião pendurado numa pequena vara como se fosse um mastro. Trazia um remo nas mãos.

Era um barco com caveiras penduradas, e tinha aparência assustadora.

Às margens do rio de águas turvas e calmas, eu só tentava entender o que eu fazia ali. Tentando respirar para melhor raciocinar, eu não sentia o ar. Mas não me sufocava por causa disso.

Abri a boca e senti que havia algo dentro dela. Ao retirar vi que era uma moeda. Uma moeda cunhada em ouro. A mente pesou e fechei os olhos, ao abri-los, o barqueiro já estava na margem.

Estendeu-me a mão como se dissesse para eu entrar no barco. Mesmo inseguro, entrei. Novamente de mão estendida, o barqueiro requeria minha moeda. Não relutei e rapidamente a entreguei.

Sobre o rio havia uma densa neblina. Tudo ao redor era escuro, parecia uma eterna noite. Uma noite fria, uma noite gélida.

Sentia o gelo, mas eu não me incomodava com a temperatura.

Só não entendia o que eu era naquele momento. Meu corpo parecia não existir.

Diante de tantas dúvidas, olhei para o barqueiro, que remava devagar aquele barco, muito devagar. Tinha olhar oculto, aparência esguia, roupas maltrapilhas, um ar de tristeza que me fazia sentir mais frio do que o próprio clima do lugar.

Resolvi conversar e perguntar onde eu estava. Sem mirar meus olhos, o barqueiro disse:

– Você morreu!

Não me assustei. Aceitei como um processo natural. Forcei a continuação do diálogo:

– Aonde vamos? Quem é você?

Uma pausa que durou uns minutos, ou horas, talvez anos, e a resposta:

– Sou o Caronte Barqueiro, transporto as almas do mundo dos vivos para o mundo dos mortos. Faço meu trabalho, não gosto de conversa.

Calei-me e aguardei o fim daquela jornada. Não queria chegar ao destino, mas cheguei, e aqui é um enigma. Não posso descrever mais nada. Só peço: não esqueçam a moeda do barqueiro.

Caronte

Baseado na Lenda Viking do Caronte, O Barqueiro e na música Vapor Barato.

Com correções de Celso Moraes

Automobilismo

A morte da mente

Autor:

E às vezes parece que a mente morreu diante das mesmices e insanidades lidas e vividas.

Se a mente morre, o blog já descansa quase em paz.