Pensamentos, Reflexões

Minha mente

Autor:

A minha mente é um mausoléu de impúdicas lembranças e desejos nada santos.
Entretanto é com a soma do que aos olhos da sociedade é execrável que me constituo o homem que sou.
Não vil, não nobre. Apenas um entre tantos homens.

Crônica, Filosofia, Pessoal, Saudade

PAI SEM TÚMULO

Autor:

Hoje me vi pensando em meu pai. E entre as tantas coisas que fizeram parte desses pensamentos, lembrei que se, hoje, eu quisesse visitar o local de seu descanso derradeiro, não poderia fazê-lo. Quero dizer, eu poderia ir ao cemitério, mas não encontraria o túmulo certo, pelo simples fato de que ele não existe.
Meu pai não era um mau sujeito. Mas, definitivamente, não nasceu para as coisas práticas da vida. Não nasceu para ser marido. E não seria de todo errado dizer que ele não nasceu para ser pai.

 

Não foi um pai ruim quando presente. O problema é que esses períodos não eram exatamente constantes. Quando as coisas arrochavam, quando minha mãe entrava em períodos de encrespamento com ele por algum motivo – às vezes ele dava motivo, às vezes não, mas as brigas aconteciam vez em quando independente disso -, ele simplesmente vazava. “Sumia”, que era a expressão que as pessoas usavam nos meus tempos de infante. Ficava meses fora, geralmente em outro estado, normalmente Minas Gerais, onde tinha parentes. E voltava, quando aquilo lá o entediava, como se nada tivesse acontecido, e minha mãe aceitava. Até o dia em que não aceitou mais.
 
Papai era um cara lúdico. Apaixonado por leitura a ponto de, quando não tinha livros, jornais ou revistas, apelar para embalagens de remédios ou mesmo rótulos de caixa de fósforos como opção de “leitura”. Creio que herdei dele o gosto por ler. Ele era “viajandão”, imaginativo, vivia em seu mundo particular. Certamente por isso não foi um bom marido e, nas coisas pragmáticas, não tiraria nem perto de 10 como pai. Mas era um cara que, se estivesse sempre ali com a gente, seria “gostável” pelo filho. Eu gostava do meu pai. Dizer que o amava, aí já teria de pensar para. Até porque ele não dava muito tempo para esse amor filial se desenvolver.
 
Violento comigo, meu pai não era. Não me lembro de uma única vez em que ele disse algo para me ofender. Quanto ao físico, em toda a sua vida meu pai me deu um único tapa, eu ainda era bem pequeno, e ele ficou uma semana contrariado com isso. Ele era o cara do oba-oba, não o doutrinador. Meio que um irmãozão, não aquela autoridade… 
 
Nunca guardou dinheiro. Na velhice, já bastante doente, tornou-se um tanto ranzinza, e depois de passar até por uma temporada num asilo – eu o visitei umas vezes e não entendia aquilo, para mim tinha algo de muito errado no fato do meu pai morar ali -, foi morar de favor em casa de um sobrinho. Lá, na manhãzinha de 01/11/1985, teve um infarto violentíssimo e morreu na cama, ao acordar todos os moradores com um grito de agonia. Coisa de dois minutos, correram ao quarto dele, não havia o que fazer. Armando já não partilhava do mesmo planeta que nós agora.

O velório foi estranho, o filho de seu primeiro casamento, gerente do hoje extinto Banespa, enviou uma coroa de flores enorme – a maior que eu já vira até então -, mas não compareceu. O enterro também foi algo sem emoção, rápido, com direito a um discurso ao pé da cova, feito por um amigo de longa data e prefeito de minha cidade natal por duas vezes. Mas ninguém se preocupou em erigir um túmulo. E daquele jeito ficou, lembro que falei a respeito, mas alguém da família alegou dificuldades financeiras gerais e disse, zoando, que se eu quisesse, que ficasse à vontade para construir a funérea obra. Eu era um cara de 17 anos, com um arremedo de emprego e sem dinheiro para isso, obviamente. Tempos depois, outro defunto foi sepultado no mesmo local, e esse sim, recebeu dos familiares uma edificação tumular, como se deve. 

 
Papai passou pela vida sem deixar nenhum legado positivo. Sem deixar nada que o fizesse lembrado, a não ser algumas amizades, a maioria de pessoas que hoje também não mais vivem. Está esquecido. Às vezes lembro dele, com um remoto carinho e com pena, sinceramente. E a espaços cada vez maiores. espero que, pelo menos, possa descansar em paz.