Poesia

Eclipse

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Era ela o sol.

Era eu a lua.

No dia do eclipse fomos um só e no escuro provocado havia o brilho da felicidade ao redor.

Ouça: Total Eclipse of The Hert

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Coisa de Interior

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Há algumas expressões do povo interiorano que eu classifico como tragicômica. Nasci e fui criado numa cidadezinha (não é pejorativo, o lugar é pequeno mesmo) “do interior do interior”, e então é natural que eu tenha convivido com esses modos de dizer que, enquanto eu morava lá, tinham um sentido e, uma vez que me fiz adulto e adquiri conhecimentos outros, passaram a ter significados a mais, parte deles diametralmente opostos aos anteriores.

Então. Embora pareça engraçada, essa expressão envolve toda uma gama de tristeza e humilhação, que passa despercebida a praticamente todos, exceto aos mais chatinhos que se dedicam a destrinchar significações (quase) ocultas das palavras.

Quando uma mulher ou um homem são separados, o relacionamento afetivo acabou  – e  aqui não importa se foram eles que terminaram ou se foram descartados pelo ex-parceiro(a) –, as pessoas se referem a eles como “largados”. “A Maria é largada”, “O João é largado”, exatamente assim. Bizarro, não?

Aí eu fui pensar melhor nesse termo, coisa que eu nunca tinha feito antes. Não por coincidência – alguém muito importante para mim diz que não há coincidências – justamente na época em que eu mesmo passei a ser, na linguagem de meus conterrâneos, um “largado”.

Dizer “separado” faz todo sentido, separamo-nos, contra nossa vontade ou não, de alguém com quem as coisas já não tinham como caminhar. “Divorciado” e “viúvo” são figuras jurídicas (se não me engano, “separado” também é), e “solteiro” ninguém volta a ser jamais, embora se coloque isso no status das redes sociais. (“It’s great to be single again!”, diz a letra de uma canção estadunidense; pois é, lá pode até funcionar, mas aqui, não.)

Mesmo que essa não seja a intenção, e praticamente nunca é, esse “modidizê” (não se assuste, isso é goianês, falo disso numa outra oportunidade) coisifica o ser humano, tirando-lhe justamente o que há de mais precioso nele: a humanidade. Sim, porque você foi “largado”, meio que jogado fora pela outra pessoa. Um brinquedo que não se quer mais, um objeto estragado ou do qual se enjoou, um belo pedaço de porcaria inútil.

Jogado no lixo. Largado para outra pessoa pegar (o que normalmente acontece em se tratando de gente). Nem é preciso mencionar – mas menciono, estou aqui para falar sobre isso – que a autoestima da criatura vai pro poço cavado no piso do porão. Mas, por incrível que pareça, na minha cidadezinha as pessoas nem tchuns (outro termo louquinho e muito usado lá, significando “não estão nem aí”) para esse status nada honroso.

“E aí, Firmino, como vai a vida?”

“Ah, cara, tô largado!”

“Vísh!”

Interessante que Firmino, que segue firme em sua jornada sem a Marcilene, refere-se a si mesmo como alguém que “está” largado, dando a entender que é uma condição temporária. A esperança ainda existe, e insiste no seu coração, como cantou Angela Ro Ro falando de solidão.

E quando o “largado” ou a “largada” conseguem uma nova relação, não passam a ser “pegados”, como seria o mais lógico. Dependendo do tipo de relacionamento que seja esse novo, talvez pudesse ser até “recapturado”… Só uma sugestão.