Crônica, História

Seu Zé

Autor:

Levantava cedo. Como sempre era a disposição em pessoa. Com seus 72 anos de idade, o vigor e a saúde não lhe faltavam.

A todos dava bom dia se de dia, boa noite se de noite. E se não era dia e nem noite, amavelmente ele cumprimentava com algum gesto.

Constantemente era visto com um charuto. Muitas vezes apagado, poucas vezes com uma fumaça branca que subia vagarosamente como se contasse uma história.

Morava só em uma simples casa. Janelas de madeira pintadas em um azul já desgastado, porta escorada com um tamborete. As paredes com uma ou outra rachadura, um reboco já velho davam um ar de simplicidade ao local.

No quintal havia algumas árvores. A mais vistosa era a mangueira. Enorme, onde ali ele sentava na sua cadeira de balanço ouvindo seu radinho em alguma estação AM.

Tinha também um pé de mexerica e um cajueiro.

O cheiro exalado pelas árvores frutíferas fazia a criançada do bairro ficar louca. Vez ou outra uma criança, ou várias estavam lá no portão gritando e pendido autorização para pegar frutas. A resposta era sempre sim.

Seu nome era José, mas era chamado de Seu Zé. As crianças brincavam chamando-o de Zé Prequeté e cantavam uma musiquinha que ele adorava:

– Zé Prequeté, tira bicho do pé pra tomar com café.

Negro, de cabelos brancos e bem encaracolados, sorriso amarelado pelo fumo ele era de alma pura e de boas atitudes.

Antes do almoço, que sempre fazia questão de preparar com alegria, tomava uma pequena dose de pinga. Não era alcoólatra, não gostava de bêbados, mas dizia que a branquinha limpava seu corpo para receber o alimento.

Não jantava. No máximo tomava um copo de leite puro às 21:20hs. Escovava os dentes e ajoelhava ao pé da cama em oração. Poucas vezes pedia, todas as vezes agradecia.

Morava só, mas não era sozinho. Tinha sempre em sua companhia as crianças que queriam frutas.

Contava pra criançada, à sobra da mangueira, longas histórias que não sei se eram reais ou inventadas, mas que prendia a meninada lambuzada de frutas ali ao seu redor. Mais doce que as frutas eram as histórias.

Era pai de três filhos, avô de oito netos. A cada dois fins de semana os filhos se revezavam ou iam todos para estar com o Seu Zé. Os netos adoravam estar ali com o Vovô Zé. Os filhos adoravam estar ali com o pai e as noras, as noras eram tão apaixonadas no Seu Zé que parece que se casaram apenas para estar próximas do sogro.

Na verdade eu me pergunto: quem não gostaria de estar do lado do Seu Zé?

Ver aquele sorriso amarelado e sincero, ouvir histórias longas e cheias de aventura. Algumas tiravam lágrimas, a maioria tiravam gargalhadas quase infinitas de todos.

Segunda-Feira, o sol teimou em ficar escondido atrás das nuvens. Um vento frio e por vezes barulhento davam um ar melancólico ao dia.

Seu ZéOs vizinhos não ouviram o radinho, a criançada não foi atendida no portão. E foi naquele dia que o céu fez festa e a terra chorou.

A chuva começou a cair ao meio dia. Ela se misturava às lágrimas da criançada, dos amigos, dos vizinhos, dos parentes e de todos que um dia conheceram o Seu Zé.

Seu Zé faleceu. Deitado em sua cama e com um sorriso amarelado, porém não amarelo, no rosto. Seus cabelos estavam mais brancos.

O dia estava triste, mas Deus estava feliz e seu Zé… Era a felicidade em pessoa.

 

 

 

Crônica inspirada na música Peixuxa – Raul Seixas
Seu Zé, personagem baseado no Zé Prequeté ou Zé Parafuso.

Crônica

O Barqueiro

Autor:

Apesar da escuridão, eu via ao longe naquele rio um homem num barco. Um pequeno barco. O homem estava em pé, com um lampião pendurado numa pequena vara como se fosse um mastro. Trazia um remo nas mãos.

Era um barco com caveiras penduradas, e tinha aparência assustadora.

Às margens do rio de águas turvas e calmas, eu só tentava entender o que eu fazia ali. Tentando respirar para melhor raciocinar, eu não sentia o ar. Mas não me sufocava por causa disso.

Abri a boca e senti que havia algo dentro dela. Ao retirar vi que era uma moeda. Uma moeda cunhada em ouro. A mente pesou e fechei os olhos, ao abri-los, o barqueiro já estava na margem.

Estendeu-me a mão como se dissesse para eu entrar no barco. Mesmo inseguro, entrei. Novamente de mão estendida, o barqueiro requeria minha moeda. Não relutei e rapidamente a entreguei.

Sobre o rio havia uma densa neblina. Tudo ao redor era escuro, parecia uma eterna noite. Uma noite fria, uma noite gélida.

Sentia o gelo, mas eu não me incomodava com a temperatura.

Só não entendia o que eu era naquele momento. Meu corpo parecia não existir.

Diante de tantas dúvidas, olhei para o barqueiro, que remava devagar aquele barco, muito devagar. Tinha olhar oculto, aparência esguia, roupas maltrapilhas, um ar de tristeza que me fazia sentir mais frio do que o próprio clima do lugar.

Resolvi conversar e perguntar onde eu estava. Sem mirar meus olhos, o barqueiro disse:

– Você morreu!

Não me assustei. Aceitei como um processo natural. Forcei a continuação do diálogo:

– Aonde vamos? Quem é você?

Uma pausa que durou uns minutos, ou horas, talvez anos, e a resposta:

– Sou o Caronte Barqueiro, transporto as almas do mundo dos vivos para o mundo dos mortos. Faço meu trabalho, não gosto de conversa.

Calei-me e aguardei o fim daquela jornada. Não queria chegar ao destino, mas cheguei, e aqui é um enigma. Não posso descrever mais nada. Só peço: não esqueçam a moeda do barqueiro.

Caronte

Baseado na Lenda Viking do Caronte, O Barqueiro e na música Vapor Barato.

Com correções de Celso Moraes