Ao ler o livro Meu Pé de Laranja Lima de José Mauro de Vasconcelos me deparei com uma história linda e triste, que emociona e faz refletir.
Uma história vivida por um menino pobre de família problemática e vários irmãos. Zezé é esse menino, que de tão custoso (custoso em Goiás é o mesmo que levado) que era vivia apanhando e era tido como filho do diabo.
Com suas peraltices ele aprontava muito, o que não o impedia de ser amoroso e sonhador. Com uma grande capacidade lúdica Zezé conseguia viver uma vida paralela, levando inclusive seu irmão mais novo, o qual ele chamava de Rei Luís, a viver nesse universo da imaginação.
Ante tantos problemas sociais, seu pai desempregado, sua mãe trabalhando arduamente em uma fábrica, Zezé era cuidado por irmãos, sendo que cada um deles tinha seu jeito de agir e pensar, tendo em sua irmã Glória sua maior companheira nas horas difíceis.
De jeito cativante, Zezé conquistou uma árvore, um Pé de Laranja Lima do qual se tornou grande amigo, mas não só de árvores e imaginação eram feitas suas amizades, Zezé também conquistou um português o qual lhe tinha com muita estima.
Dados os relatos, para não estragar a magia do livro, aconselho-lhe a lê-lo.
No livro há várias ocorrências onde Zezé leva surras e em duas delas, surras de quase ser morto. Apanhou tanto de seus irmãos quanto de seu pai.
Zezé, menino curioso e cativante, com suas travessuras sempre levava umas varadas, ou palmadas e em alguns momentos socos de ter dentes quebrados.
Criança de cinco anos que sonhava e tinha uma inteligência impar, que, porém se via esbarrado na incapacidade dos adultos de compreenderem o mundo infantil, seja pelas dificuldades sociais/financeiras ou seja simplesmente pela incompreensão que os crescidos tem para com os pequeninos.
Ante a leitura do livro comecei a perceber como as crianças hoje são tratadas. Geralmente como adultos em miniaturas ou bonecos de porcelana. É-lhes tirado o direito de imaginar, sonhar. Não lhes é outorgado o direito de viver o lúdico, de brincar de cavalo de pau e ser cowboy.
Crianças que cuidam de crianças e crianças que são criadas cheias de não-me-toque, não dando lhes chance de viver a infância de forma que descubram a vida de forma aprazível, gerando adultos revoltados e/ou deprimidos.
Crianças que convivem com a violência, com a fome, com a falta de carinho e atenção. Ou então convivem com brinquedos eletrônicos em detrimento do aconchego de um colo.
Crianças que descobrem o que é perder muito cedo, mas que escondem suas dores por medo de repreensão.
Sinto aquele menino, o Zezé, como se ele estivesse ao meu lado, com os olhos cheios de lágrimas por não poder viver sua infância com segurança. A cada hora que vejo um pai maltratando um filho, a cada hora que a paciência é perdida com a criança depois de um dia cansativo, a cada vez que vejo os problemas financeiros desestruturando pais amáveis outrora… Meu coração se parte.
Muitas vezes quando eu era criança apanhei, apanhei um bocado por ser muito chato (realmente eu era e ainda sou muito chato). Minhas chatices vinham da necessidade de carinho, de colo. Vinha da necessidade de ver um pai presente, de poder ganhar um presente legal, de poder me vestir com uma roupinha bonita.
Minha chatice vinha da necessidade de eu não ter que ouvir toda vez que eu estava na rua que eu era feio.
Ainda hoje ouço isso e até me acostumei (claro que sei que é mentira), mas para uma criança é difícil.
Por ser peralta Zezé era tido como um demoniozinho, enquanto que para ele ser angelical ele precisava apenas de atenção e carinho.
Percebo então que a criança, por mais precoce que pareça, necessita de viver sua infância.
Então quando vires uma criança montada em um cabo de vassoura a galopar em seu cavalo, incentive-a, não lhe tire a ilusão.
Deixe o lúdico ir se tornando razão em seu tempo, pois a criança terá muito tempo para poder entender a podridão desse mundo, mas enquanto ela quer ser apenas criança não matemos esse desejo, afinal de contas se estamos rancorosos não devemos descontar naqueles que ainda estão apenas descobrindo a crueldade desse mundo.
Não sou especialista em educação, em criação de filhos ou quaisquer disciplinas relacionadas a este assunto, portanto este não é um artigo científico e sim, somente de mera opinião.











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