Eu ainda era uma criança, ou como chamam hoje, um pré adolescente. Estava jogando bola na quadra de esportes da minha cidade quando de repente passou um avião bem baixo, fazendo um enorme barulho.
Ali paramos um pouco para olharmos pela abertura que havia entre o telhado e as paredes aquele avião que passou e por pouco tempo pudemos presenciá-lo.
Como alguém que é dono da situação, um dos meninos que ali estavam disse:
-Vocês parecem que nunca viram avião, parecem bobos da roça. Eu já fui no aeroporto com meu pai e vi avião de pertinho.
Para nós, crianças do interior de Goiás, viajar de avião, ou mesmo ir a um aeroporto era como ter uma Ferrari, um sonho distante.
Me senti naquele momento envergonhado por ser tão “roceiro”, por ficar olhando um avião passando como se eu fosse um bobo. Daquele dia em diante não mais olhei para o céu quando um avião fez barulho, não mais sonhei e a cada vez que passava um avião, por mais vontade que eu tivesse não olhava pra cima e me sentia castrado, de sonhos e ilusões enterradas na lama.
Fui então, com o passar do tempo percebendo o quanto os sonhos nos são tirados, sejam pelas dificuldades impostas pela vida ou simplesmente por um comodismo que insiste em nos perseguir.
Os sonhos nos são tirados por amigos, inimigos, colegas, trabalho, chefes, professores… E nos são tirados.
Aceitamos argumentos fajutos para desistirmos de sonhar, desistirmos de querer dançar até aprender o passo.
Então, pude eu ir a um aeroporto e ver os aviões, entrar em um deles, pude lá
de cima sonhar novamente e cada segundo ali, vendo do alto as cidades, os carros, nuvens, etc., meus sonhos iam se formando novamente, erguendo das cinzas e pegando carona naquele avião que insistiu em pousar, mas não deixando cair meus desejos de voar novamente.

