Amizade, Crônica, Pessoal, Reflexões

Epitáfio em Vida

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Chegará o momento em que meu último suspiro será dado. Confesso que tenho muito medo da chegada desse dia inevitável. Como não é possível prevê-lo, começo a pensar nas coisas que deixarei para trás.

Penso que daquele dia em diante não ouvirei mais músicas que me emocionam, não dançarei mais de forma desengonçada ao ouvir uma canção que eleva meus sentidos a outro mundo.

Não ouvirei mais o toque da viola, da guitarra, do violino…

Não me alegrarei quando a banda tocar Raul, me sentindo como se acabasse de conquistar um prêmio valioso.

Não verei mais um jogo emocionante de futebol, torcendo por meu time de coração ou torcendo contra outro time qualquer.

Não saberei quem será daquele dia em diante campeão da libertadores, do brasileirão, do campeonato goiano ou potiguar.

O sorriso de criança que outrora me fazia sorrir já não mais será visto por meus olhos que fechados sem vida estarão apenas a mercê da decomposição natural.

Aquele gato preguiçoso que está sempre no mesmo local esperando alguém passar para lhe acariciar não terá mais minhas mãos em seus pelos, o fazendo ronronar.

Não amarei mais e me amarão apenas em lembranças, até que essas lembranças se findem.

Os meus braços gelados não terão mais uma dama deitada sobre eles, recebendo de minhas mãos carícias em seus cabelos.

Não terei amores ou paixões. Aventuras no canto do muro, no parque, em algum cantinho escondido não mais serão realizadas por mim. Sem beijos, sem abraços, sem vida, sem fogo, sem ardor. E assim não tocarei mais um rosto carinhosamente, tocando conjuntamente a orelha e a nuca da mulher que me olha nos olhos com desejo, deixando a com boca molhada esperando a minha.

Ah, sinto dor ao pensar que não mais subirei em uma bicicleta para pedalar por aí, sofrendo sob o sol quente, “sofrendo da alegria de sofrer” ao pedalar.

Aqueles amigos que eu zoava, que me zoavam… o fim de nossas zoeiras terá chegado para alegria de alguns.

Meu futuro já terá se encerrado e assim não verei o futuro dos sobrinhos, filhos, crianças que acompanhei o crescimento.

Aquele sorriso que me fez sorrir um dia terá sido o mais belo sorriso e que agora é apagado da minha memória.

Abraços. É justo que depois que chegar a morte eu não tenha direito a mais abraços? Vou protestar onde contra essa regra estúpida?

Não mais escreverei sobre o que deixarei e sim terei deixado algo escrito.

Das dores, essas não me incomodam deixa-las.

Daquele dia em diante talvez eu possa por um tempo ser apenas uma lembrança para algumas poucas pessoas, mas só por um tempo.olhos

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  • Celso Moraes F

    Texto maravilhosamente sombrio. Em breve estarei voltando a publicar aqui. Será bom retornar a esta casa!