Café Com Amigos
22jan/100

A história do Haiti é a história do racismo na civilização ocidental

Por Eduardo Galeano, em Resumen Latinoamericano, via Resistir.info

A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca ideia de querer um país menos injusto.

O voto e o veto

Para apagar as pegadas da participação estadunidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha eleito nem sequer com um voto.

Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:
– Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores dão o exame por perdido.

O álibi demográfico

Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Porto Príncipe, qual é o problema: – Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.

E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilômetro quadrado.

Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado... de artistas.

Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.

A tradição racista

Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar as dívidas do Citybank e abolir o artigo constitucional que proibia vender as plantations aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis pela invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: "Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".

O Haiti fora a pérola da coroa, a colônia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro".

Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".

A humilhação imperdoável

Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha meio milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.

A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia.

O delito da dignidade

Nem sequer Simón Bolívar, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar havia podido reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano havia-lhe entregue sete naves e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma ideia que não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo. E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas convidou a Inglaterra.

Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pênis. Por essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indenização gigantesca, a modo de perdão por haver cometido o delito da dignidade.

A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.

Eduardo Galeano é escritor

6jul/093

Uma doença chamada preconceito – Reflexão

No blog Censurado li o texto Uma doença chamada preconceito e os comentários me fizeram lembrar que há alguns dias minha namorada e eu falávamos sobre a questão racial no Brasil.
No seriado da Rede Globo – FORÇA TAREFA – foi exibido um episódio em uma favela sendo que um negro seria o chefe do tráfico.
Eu particularmente não vi preconceito em tal fato, pois banditismo independe da cor... etc etc etc.
A questão que foi abordada por minha namorada é que: "Por que os negros não se valorizam mais?".
Como disse a leitora Elisa do blog Censurado em seu comentário, faltam aos negros a sua própria valorização.
Valorizar-se não é ser soberbo, não é se achar melhor que os outros, mas sim mostrar suas capacidades.
Já dizia a música: Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor...
Chega de quando for falar de negros dizer: Os negros também são bons, olha o jogador A e o B etc e tal.
Lasque-se essa de jogador, pois negro não é só futebol. Está na hora de fazermos diferente, de mostrarmos que temos vontade de vencer, que temos auto-estima (estou dizendo temos, pois sou negro).
Está na hora de saimos da cultura das aparências e lutarmos por reconhecimento de capacidade.
E pra isso é necessário mudar atitudes, buscar mudar comportamentos.
Peguemos a história recente de SP.
Paulo Maluf apoiou Pitta para prefeito. Pitta ganhou e fez várias falcatruas.
Pitta é negro, Paulo Maluf é branco... Alguém diz: Tinha que ser preto mesmo. Mas Maluf já errou muito e não tem suas falhas associadas à sua cor de pele.
Onde quero chegar? Quero chegar no ponto que para ser reconhecido o negro não pode querer agir errado assim que tem oportunidade.
Se o Obama fizer a coisa certa será aplaudido, se errar será tão criticado por suas atitudes e sua incompetência será associada à sua cor, o que não ocorre com o Bush, que terá sua incompetência associada somente à sua incompetência e pronto.
Então já posso sair da questão racial e partir pra social.
Se um grupo de jovem da classe média comente um crime sai na mídia:
- Jovens de Classe média assaltam um banco!
Se eles são da favela:
- Bandidos invadem um banco e roubam milhares de reais.
Aí está o preconceito social.

E não pára (agora pára verbo é sem acento né?) por aí:
-Loira burra... loira burra...

Sem contar que agora todo padre virou pedófilo, todo pastor evangélico só quer dinheiro, todo político é corrupto, ou seja, preconceito é generalização.

Uma das leitoras do blog Censurado (veja o comentário) comentou que mulher no Brasil é vista só como bunda e peito. An, entremos na mesma questão que eu disse sobre os negros:
-É hora de se valorizar.
Chega de viver pelas aparências...

Quanto as cotas raciais, quando eu era mais moço (há uns 4 anos) houve essa discussão na universidade que eu estudava e eu afirmei categoricamente que o que estão querendo é tampar o sol com a peneira.
É como se quisessem varrer o lixo pra debaixo do tapete.
Está mais que na hora de assumirmos que há sim preconceitos no Brasil. Eu já fui ofendido várias vezes por causa da minha cor (não tenho a pele muito escura, mas tenho os traços de negro). E o pior, por eu não ser um negro da cor bem escura tinham a capacidade de fazer piadinhas de negros e olharem pra mim e dizer: Você não é negro, é moreno!
Já argumentei, já usei da rispidez para ir contra os fatos, mas nada, nada me deu mais força e visibilidade que a autoconfiança, a luta por um lugar melhor, a vontade de vencer e a coragem pra mostrar que minha capacidade vai muito além da cor da minha pele.
Eu tive duas oportunidades na vida:
- Me fazer de coitado e me tornar um alcoólatra como vários familiares;
- Mostrar quem eu sou de verdade lutando e fazendo acontecer.

Não estou ainda onde quero, tenho muito que conquistar, mas tenho certeza que se eu lutar, independente da minha cor, posição social eu conseguirei.
Mas se eu me sentar no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar... ela chegará!

13mai/090

Uma doença chamada preconceito

Blog Cesurado

Imagem - Blog Cesurado

Visitando alguns blogs encontrei no blog CENSURADO um ótimo texto sobre o preconceito.

Há algum tempo queria falar sobre este assunto aqui, porém faltou a argumentação necessária.

Diante desse fator ao ler o post intitulado Uma doença chamada preconceito decidi que ao invés de escrever, deveria apenas linkar o texto.

Pra ler o texto cliquem aqui

Pra ler ir direto em meu comentário no texto cliquem aqui